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ONC Produções

Músicos

Pedro Burmester

Discografia

O regresso

Este é o primeiro disco a solo de Pedro Burmester após uma longa ausência dos palcos e estúdios de gravação. No âmbito da Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, projecto que abraçou em 1998, foi mentor da Casa da Música e da sua programação, a qual mudou definitivamente a vida musical em Portugal. Para trás tinha ficado uma carreira de sucesso enquanto pianista, um percurso sólido desde o tempo de estudante que o levou a ser discípulo de alguns dos mais lendários mestres do século XX, a tocar em prestigiados palcos de todo o mundo e na companhia de grandes orquestras, a receber prémios em concursos internacionais, a tocar na companhia de músicos de diversos géneros musicais, a gravar discos, a ensinar toda uma geração de novas promessas do piano em Portugal.
Pedro Burmester permaneceu ligado ao projecto Casa da Música até Dezembro de 2008, altura em que, por iniciativa própria, deixou o cargo de Director Artístico. Já muitos se questionavam se iria regressar algum dia à vida de pianista. Sim, porque a coerência com que sempre se ligou aos diferentes projectos fez com que se dedicasse a tempo inteiro à programação e compreendesse as ligações perigosas entre esta actividade e a carreira de músico. Mas este novo disco é muito mais do que uma resposta a essa pergunta.
Schubert e Schumann foram os compositores escolhidos, tal qual como no disco primordial, lançado no mercado em 1987. Por breves momentos parece que fica no ar a eterna pergunta: se pudéssemos começar tudo outra vez…
Schubert e Schumann novamente, é certo, mas não porque Pedro Burmester quisesse recomeçar tudo outra vez, ou tentar de novo, mas por questões afectivas de identificação com o repertório. Foi como regressar a casa, ao habitat natural, ao local que conhece desde a mais tenra idade. Mas foi, igualmente, com obras completamente novas no seu repertório, com um olhar em frente como quem aceita um novo desafio e sabe que nada será como antes. Desta feita lançou-se à maior sonata para piano de Schubert, a Sonata póstuma em Lá maior, D.959, e defrontou-se com uma expressão de sentimentos mais complexa e dilatada, que oscila por entre o desespero e a felicidade, entre a mais singela simplicidade e a maior solenidade.
Também no regresso a Schumann, Burmester escolheu um desafio de respeito. Os Estudos Sinfónicos ocupam um lugar de relevo na história da música, herdando de Beethoven a forma de escrever variações e lançando a Brahms o desafio de superar o intransponível. Pináculo de expressão da cor orquestral na escrita pianística, inexcedível nos contrastes de humor, no ímpeto virtuoso e no lirismo sonhador, os Estudos Sinfónicos são uma das obras com maior liberdade para um artista mostrar a sua individualidade e o que tem a dizer com a sua música.
As gravações decorreram em duas sessões na Casa da Música. Pedro Burmester estava absolutamente sozinho na Sala Suggia, na companhia do piano e dos microfones. Tocou cada uma das obras umas três vezes. Ouviu-se, depois, séria e atentamente. Esboçou um sorriso, como quem reconhece um rosto familiar. Poderia ter ficado interminavelmente à procura da inalcançável perfeição que sempre anseia, mas não quis. Encontrou-se de novo.

Rui Pereira (2010