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Dois anos depois da sua morte, Hitchcock foi responsável por transformar um miúdo de doze anos em cliente compulsivo da Cinemateca. Estávamos em 1982 e o puto, que por esses dias levava já três anos de disciplinada dedicação ao piano, descobria com o mestre do suspense uma paixão pela imagem que não mais arrefeceu. Os ciclos de cinema passaram a merecer maior fidelidade que a escola e cada filme o direito a uma sinopse devidamente dactilografada. Sobre os doze anos outros doze anos passaram e o jovem, então já um respeitado músico de jazz a gravar o álbum de estreia a solo ao lado de Paquito de Rivera, alargava os horizontes da sua paixão à fotografia. Hoje, consagrado também pelo trabalho de composição para cinema, diz querer prestar através da música o tributo que o cinema lhe merece. Bernardo Sassetti estreia esta noite, 21.30, na Culturgest, em Lisboa, o novo álbum Ascent, num espectáculo em que assina som e imagem.

A noite, garante o pianista, segue à risca o alinhamento do disco que chega na sexta-feira às lojas (edição Clean Feed). Tal como em estúdio, Sassetti é acompanhado em palco por dois trios um que faz a interpretação rigorosa da sua escrita, com Jean François Lezé no vibrafone e Ajda Zupancic no violoncelo; outro a que é pedida improvisação, com Carlos Barreto no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria.

"Pretende-se cruzar a liberdade do jazz com a composição condicionada pela imagem", resume o pianista. E isso significa responder à dúvida antiga sobre a possibilidade de cruzar estes dois mundos por que reparte a sua arte. "Porque se a música para cinema tem imagens que condicionam o movimento das notas, o jazz é uma forma de música que proporciona imagens únicas, construídas no momento."

do silêncio ao silêncio. Ao primeiro tema de Ascent, Sassetti chamou Do Silêncio, Revelação; ao último, Da Noite, Ao Silêncio. Ambos são interpretados pelo "trio erudito". Pelo meio, há seis temas reservados ao trio de jazz, outro à formação com vibrafone e violoncelo, e um outro ainda - precisamente na posição seis, ao centro do alinhamento - que envolve todos os músicos e reúne as duas formações numa só, achando assim o ponto de encontro desejado. Um repertório que inclui três temas adaptados da banda sonora de Costa dos Murmúrios , de Margarida Cardoso.

Trata-se afinal de começar na contenção que Sassetti diz ter cultivado por influência dos realizadores com quem trabalhou, passar pela exuberância da improvisação jazz, achar a síntese e a partir daí iniciar o movimento de regresso ao minimalismo. Até ao silêncio.

do som à imagem. Para firmar a ponte entre os dois mundos, o espectáculo desta noite inclui projecção de imagens que Sassetti foi captando ao longo dos dias de composição. "São imagens com uma estética desfocada ou distorcida da realidade. Uma realidade que eu represento de forma fragmentada, como se fosse a película de um filme." Um filme que de alguma forma resume sete anos em que o pianista somou um notável currículo no cinema. Entre outras, assinou as composições para Maria do Mar , de Leitão de Barros, Facas e Anjos, de Eduardo Guedes, Quaresma , de José Álvaro Morais, O Milagre segundo Salomé, de Mário Barroso, e Alice, filme de Marco Martins que estreia esta quinta-feira. Para Anthony Minghella, gravou com Matt Damon um punhado de standards integrados na banda sonora de O Talentoso Mr. Ripley.

Por tudo isso, Sassetti diz-se devedor de toda essa gente. Mas Ascent tem dedicatória endereçada a um nome em particular José Álvaro Morais, realizador falecido em 2004. "Enquanto trabalhávamos, dizia-me muitas vezes: não te esqueças de que por cada subida há sempre uma descida. Foi a partir dessa frase que comecei a escrever a música do filme. É daí que vem o título e o conceito do álbum."

Depois, há também a ideia de importar o "aquele conceito de narrativa fragmentada da realidade que é própria do cinema. Viu o filme Shortcuts, de Robert Altman? Aquela ideia de pequenas histórias que aparentemente nada têm que ver umas com as outras, mas que depois vão convergindo? É também isso que eu procuro com este disco e este concerto."

joão pedro oliveira, in DN, 04/10/2005